terça-feira, 16 de agosto de 2005

No cabo da minha enxada não conheço "coroné"

Uma música que marcou a minha infância, apesar de não captar sua mensagem na época.
MPB 80 era o nome do disco. Era o resultado do Festival MPB Shell da Rede Globo, em 1980. Músicas como "Agonia" (Mongol), interpretada por Oswaldo Montenegro, "Porto Solidão" (Zeca Bahia/Ginko), com Jessé, "Clareana" (Maurício Maestro/Joyce), com Joyce e "A Massa" (Raimundo Sodré/Jorge Portugal), entre outras. Esse disco era do meu pai, que, depois do surgimento do CD, jogou fora, deu, vendeu e emprestou todos os seus LPs. Uma pena.
Ouvindo Elba Ramalho cantar "A Massa" no seu disco "Paisagem", muita coisa veio na lembrança. Foi meio difícil achar a letra, mas ela tá aqui. Uma letra ainda atual, infelizmente.

A Massa
(Raimundo Sodré - Jorge Portugal)

A dor da gente é dor de menino acanhado
Menino-bezerro pisado no curral do mundo a penar
Que salta aos olhos igual a um gemido calado
A sombra do mal-assombrado é a dor de nem poder chorar

Moinho de homens que nem girimuns amassados
Mansos meninos domados, massa de medos iguais
Amassando a massa a mão que amassa a comida
Esculpe, modela e castiga a massa dos homens normais

Quando eu lembro da massa da mandioca mãe, da massa
When I remember of "massa" of manioc
Nunca mais me fizeram aquela presença, mãe
Da massa que planta a mandioca, mãe
A massa que eu falo é a que passa fome, mãe
A massa que planta a mandioca, mãe
Quand je rappele de la masse du manioc, mére
Quando eu lembro da massa da mandioca

Lelé meu amor lelé no cabo da minha enxada não conheço "coroné"
Eu quero mas não quero (camarão). Minha mulher na função (camarão)
Que está livre de um abraço, mas não está de um beliscão
Torna a repetir meu amor: ai, ai, ai!
É que o guarda civil não quer a roupa no quarador
Meu Deus onde vai parar, parar essa massa
Meu Deus onde vai rolar, rolar essa massa

terça-feira, 9 de agosto de 2005

Encontro com Neil Gaiman

17h00 – estava eu trabalhando (na época, era diretor de arte ilustrador, respectivamente, do iGuinho e da Zuzubalândia, os dois sites infantis do iG), quando recebi a notícia de que ali ao meu lado, na seção do chat do portal, logo mais estaria ninguém mais, ninguém menos que Neil Gaiman. Ele, que acaba de publicar no Brasil, pela Ediouro, o livro Criaturas da Noite, escrito por ele e desenhado por Michael Zulli, estava lançando, na época (maio de 2001), O Livro dos Sonhos, pela Conrad. Pensei comigo, “preciso pegar um exemplar de Sandman para me aproximar dele, ter uma conversa descontraída – e longa, se possível –, registrar o encontro com fotos e, claro, com um autógrafo".

19h00 – corri até a banca mais próxima (àquela hora já não dava mais tempo de ir pra casa buscar minha revista). Frustrante. O jornaleiro nem sabia quem era Neil Gaiman. Mais algumas bancas fechadas, outras que também não tinham nada do escritor, e lá estava eu, no meio da avenida Faria Lima, em São Paulo, pensando no que fazer. “Ridículo”, pensei. Chegar de mãos abanando, me dizendo “fã”, era simplesmente ridículo.

20h00 – de volta ao 4º andar do iG, para o meu computador, fiquei esperando pelo encontro que, provavelmente, seria o primeiro e último com aquele gigante dos quadrinhos. Estava tudo arrumado: máquina fotográfica e um bloquinho, para pegar autógrafo. Pensei no que iria dizer ou perguntar, mas aí lembrei de algo que me deixou nervoso: eu não falo inglês! “Vou pra casa”, disse, mas me avisaram que convidados estrangeiros vêm sempre acompanhados de uma intérprete. Ufa... eu raciocino com muita dificuldade nessas horas.

21h00 – e, uns dez cafezinhos depois, o telefone tocou. Era ele, subindo. Eu tremia mais que vara verde. Minhas mãos, de tão úmidas, marcavam o bloquinho. Ele chegou e eu dei um sorriso amarelo, meio duro, meio trêmulo. Arrisquei um “hi, Neil”, e só. O resto ficou a cargo do intérprete, de quem eu abusei à exaustão, antes de começar o chat. Perguntei coisas do tipo “como foi recebido pelos fãs brasileiros?”, “em que projetos está envolvido no momento?”, “de que trabalho mais gosta?”. As perguntas que todo mundo faz, e para as quais ele já devia ter respostas automáticas, apesar de ter sido o tempo todo muito simpático e atencioso. Ele sabia que ali estava um fã, nervoso e descrente de que estivesse conversando com Neil Gaiman. Enfim, pedi um autógrafo (que você confere aí, ao lado) e tirei fotos.

22h30 – termina o bate-papo. Ele se despede de nós. Eu vou para casa e sigo à risca a recomendação desse que é um dos mestres da nona arte.

segunda-feira, 8 de agosto de 2005

Menina, amanhã de manhã

Menina, você veio e já foi embora. Ficou só a sua mensagem.

Você fez as pessoas se aproximarem num choro em coro, cada um a seu modo, mas um choro em coro.

Eu, que nem tive tempo de te conhecer, também te esperei. Via você começando tudo: comer, sorrir, chorar, andar, falar. Imaginava você. Mas isso nunca vai acontecer.

Mas existe uma maneira de manter você conosco: não desfazer o elo que você criou, ou que começou a formar. Por isso eu digo que você veio.

Menina, sua passagem por aqui não foi em vão. Acredite.