quarta-feira, 14 de dezembro de 2005

O repouso


Depois de sair do labirinto, o explorador resolve descansar um pouco. Ele pára para refletir sobre seus últimos passos e pensar em quais serão os próximos.
O seu primeiro guia o espera, o explorador ouviu de um arauto que ele andou dizendo a todos os outros seguidores que o seu discípulo mais querido o decepcionou, abandonando-o, é a primeira vez que ele fala isso em público. Já havia ouvido isso do próprio guia, anos antes, e o odiou por isso, o odiou por ser mais amado por ele que os outros. Nunca quis esse amor preferencial, via os outros e sentia culpa, por culpa do seu guia. Daquele momento em diante, se tornou um discípulo arredio, tentou desapontá-lo o máximo que pode, para que ele enxergasse os outros, que também queriam o seu amor. "Irresponsável!", pensou. "Com que direito ele pode dizer algo assim, aos outros?".
Esse guia sempre foi um tipo tacanho, mesmo, sem tato. Venceu a fome. Correu o mundo e se tornou grande, tão grande que, quando caiu, não pôde mais se levantar. Mas ainda exerce o seu poder, ou tenta mantê-lo. Um poder patriarcal, manipulador.
O explorador aprendeu tudo com ele. Tem muito dele. Mas não sabe usar contra o seu guia o que aprendeu. Espera descobrir, na hora em que estiver frente a frente com o fantasma - que o atormentou todos esses anos em que esteve longe, correndo o mundo, como o seu guia. Mesmo o rejeitando, seguiu todos os seus passos. Fez caminhos tortos e guarda valores herdados dos quais nunca se livrará. Mas pode policiá-los, porque eles são como vícios que, ao primeiro deslize, podem voltar.
O que mais o deixa triste, é que, no fundo, há ali uma alma perdida, que não consegue conviver com seus próprios fracassos e medos. O explorador identifica isso e tenta ser diferente.
Na sede há, além do guia e dos outros dicípulos, a governanta. Ela salvou o guia, anos atrás, da morte certa. Nessa época, ele era um errante, sem lar, sem guia. Sem dentes, nem garras. Sem nada. Ela o tirou do frio, dando o seu coração quente, sua confiança, em sabe Deus o quê. Mas ela confiou, é verdade. Resolveram construir a sede. O errante se tornou guia, enfim. Passou a ostentar o brilho da vitória nos olhos, como quem ostenta distintivos ou dentes de ouro. Ele era o dono do mundo, ninguém era maior que ele. Ninguém podia mais.
Mas uma queda o deixou no chão. Ele amargou a derrota, furando e cortando as suas entranhas, com precisão cirúrgica. Hoje ele vive no restou da sede, entre ruínas de um passado de glória. Mas ele resiste a ver o que o derrubou: ele foi traído por si mesmo.
A governanta, que nunca o deixou só, chora em silêncio. Tira de si forças que nunca havia experimentado antes, capazes de sustentar a sede em seu seu próprio lombo, se for preciso. Sempre quieta.
É hora de levantar e seguir na jornada...

Foto de Maria Carolina Maia

terça-feira, 13 de dezembro de 2005

O passado também tem seus anjos


Agora ele está em um labirinto. Entre tantas entradas, tantos caminhos, ele espera encontrar as respostas que o deixarão em paz com o seu passado. Ele vê um menino, que, anos atrás lhe pediu para ser o seu guia. Ele aceitou, mesmo sabendo que ainda não estava pronto e, talvez por isso mesmo, tenha errado tanto. O menino reafirma que ele ainda é o seu guia. Ele já não sorri mais com antes, está fosco, sem brilho, mas ainda deixa escapar uma chama, de seus olhos, e um sorriso trêmulo, de seus lábios. "Eu sei que sou, e me orgulho pela confiança que depositas em mim, ainda", ele está aqui pra se reconciliar com o seu passado, encarar os seus demônios, seus medos. A si mesmo.
"Menino, me ensine o caminho, para que saia logo daqui", ele implora. Eles se dão as mãos e caminham, sossegadamente. Nesse momento, o explorador até a se arrepender de ter pedido para que o menino o tirasse logo dali. A paz que ele experimenta, depois de dias de tempestade, de deserto e de sede, é quase fulminante, em seu peito machucado. "Menino, continue comigo, durante o resto da jornada", "não posso, ainda. O que fizestes para que eu te siga, agora? Além do mais, o Rancor nunca permitiria...". O explorador abaixa a cabeça, sabe que o menino tem razão. Ele sai do labirinto, prometendo voltar, não ao menino, mas a si mesmo.

Foto de Maria Carolina Maia

segunda-feira, 12 de dezembro de 2005

Encontrando os seus demônios


O velho guia quer falar com o explorador, mas ele não responde aos seus apelos. "Não agora, meu velho". O explorador acaba de descobrir que está só, e que é assim que deve ser, durante a sua jornada. Ele precisa descobrir de onde vem e o que ele é, mas essa resposta ele só terá quando encarar os seus demônios, em especial um: aquele que foi o seu primeiro guia.
Nenhum perigo, nenhuma missão o atemorizou tanto quanto esse encontro. Ele já percebeu que encarar o seu primeiro guia vai ser o mesmo que encarar a si próprio. A situação ficou insustentável e o explorador não tem mais como voltar. Agora é entrar no túnel escuro do seu passado, tateando as paredes a procurar portas, respostas.
A névoa e o abismo fizeram com que ele perdesse o foco da sua missão, mas ainda resta esse túnel, negro, silencioso. O explorador nunca sentiu tanto medo. Ele não teme os outros, só a si mesmo. Ele sabe que precisa passar por essas provas, para se tornar um guia de verdade. "As crianças estão te esperando, homem!", ele lembra. Essa é parte da sua missão.
Andando pelo corredor, ele encontra velhos e novos companheiros. Alguns o ajudam, outros se mostram indiferentes ou apenas interessados em suas conquistas. Com os que se mostram solidários, ele é franco, honesto. Se mostra inteiro, frágil e pequeno. Fala de suas dificuldades e medos.
Com os outros, não. Ele ainda está aprendendo a jogar, a conhecer os seus "adversários". "Este lugar não admite filhos fracassados", ele sabe. Por isso, para os que querem apenas saber de suas desgraças, ele mente. Aumentou o tamanho dos monstros, a quantidade de medalhas. Rindo de tudo isso, de todo esse falso interesse nele. Só não não aumentou o número de mulheres que teve, "apenas Vênus", diz. Acha graça quando vê a cara de espanto dos seus antigos companheiros, que, na verdade, nunca partilharam da mesma luta que ele.
Vênus diz, no seu ouvido, "tu tens muito deles todos". Ele sabe que ela está certa. "Agora, eu vou ter uma conversa séria com ele". Ele adiou muito essa conversa, agora, que deixou a situação chegar a esse ponto, não vai mais poder voltar atrás. Agora, ele vai ter de fazer o caminho reto. Direto. "O velho guia vai ficar orgulhoso de ti!", ela diz. "Tu já és grande, explorador, não tenhas medo". Mas ele tem. Vai ser uma luta difícil. Ele vai esbravejar e gritar, mas o explorador terá que se manter firme. Tem medo de não ter forças pra isso. Ele o intimida. Nunca pensou que fosse assim. "Tu estás começando a se conhecer, explorador. Não pare nem recue. Tu vais descobrir muita coisa".

Foto de Maria Carolina Maia

domingo, 11 de dezembro de 2005

Voltar quase sempre é partir para um outro lugar


A visão está turva. Uma névoa densa que aumenta e cega, cada vez mais. Sem norte, sem rumo, agora ele só tem as suas palavras e, às vezes, a sua voz. Seria tão mais fácil ter, também, a sua mão perto, para guiá-lo nesse vazio, cheio de incertezas, dúvidas e desejos.
Vagando, dispensando até o velho guia - nem pensa nele, não o quer, agora - pois, quer achar o caminho só - já que está só, nesse momento, sem a única pessoa que poderia tirá-lo desse mar de insegurança e sedução.
Mas, em meio à névoa, ele percebe um ou outro ponto de referência: ele vê um abismo, e é desse abismo que ele tem mais medo, pois sabe que, se jogando ou caindo nele, não poderá voltar. Nunca mais. Mas esse abismo tem algo encantador, que o chama e o seduz para o desconhecido. Ele é um explorador e essa possibilidade o enche de vontade de se jogar, de descobrir o que há ali. Ele adolesce, é verdade, e se enche de vaidade e vigor. Nunca pensou que seria assim. Prefere, hoje, nunca ter voltado, até.
Ele já sabia das surpresas e tinha medo do que ia encontrar de novo, no seu lugar, que sempre foi sua referência e ponto de refúgio, caso sua exploração não desse certo. Mas ela deu certo e ele voltou cheio de vitórias, trazendo o anel, que lhe conferia o direito à sua maior conquista: o amor de Vênus, que ele deixou no local que havia explorado por anos, prometendo a si mesmo que voltaria para buscá-la. E agora vem esse lugar, que ele achava que conhecia tão bem, lhe dando novos desafios. Essa "supresa" ele não esperava, apesar de saber que "voltar quase sempre é partir para um outro lugar", como já lhe disse, no rádio, outro marujo, que também já viveu navegando.
A voz da musa lhe disse que ela já quebrou os seus navios, e que o espera no cais.
O que será dele sem a sua musa? quais as suas chances de sobreviver, se se jogar nesse abismo?

Foto de Maria Carolina Maia