domingo, 11 de dezembro de 2005

Voltar quase sempre é partir para um outro lugar


A visão está turva. Uma névoa densa que aumenta e cega, cada vez mais. Sem norte, sem rumo, agora ele só tem as suas palavras e, às vezes, a sua voz. Seria tão mais fácil ter, também, a sua mão perto, para guiá-lo nesse vazio, cheio de incertezas, dúvidas e desejos.
Vagando, dispensando até o velho guia - nem pensa nele, não o quer, agora - pois, quer achar o caminho só - já que está só, nesse momento, sem a única pessoa que poderia tirá-lo desse mar de insegurança e sedução.
Mas, em meio à névoa, ele percebe um ou outro ponto de referência: ele vê um abismo, e é desse abismo que ele tem mais medo, pois sabe que, se jogando ou caindo nele, não poderá voltar. Nunca mais. Mas esse abismo tem algo encantador, que o chama e o seduz para o desconhecido. Ele é um explorador e essa possibilidade o enche de vontade de se jogar, de descobrir o que há ali. Ele adolesce, é verdade, e se enche de vaidade e vigor. Nunca pensou que seria assim. Prefere, hoje, nunca ter voltado, até.
Ele já sabia das surpresas e tinha medo do que ia encontrar de novo, no seu lugar, que sempre foi sua referência e ponto de refúgio, caso sua exploração não desse certo. Mas ela deu certo e ele voltou cheio de vitórias, trazendo o anel, que lhe conferia o direito à sua maior conquista: o amor de Vênus, que ele deixou no local que havia explorado por anos, prometendo a si mesmo que voltaria para buscá-la. E agora vem esse lugar, que ele achava que conhecia tão bem, lhe dando novos desafios. Essa "supresa" ele não esperava, apesar de saber que "voltar quase sempre é partir para um outro lugar", como já lhe disse, no rádio, outro marujo, que também já viveu navegando.
A voz da musa lhe disse que ela já quebrou os seus navios, e que o espera no cais.
O que será dele sem a sua musa? quais as suas chances de sobreviver, se se jogar nesse abismo?

Foto de Maria Carolina Maia

2 comentários:

Ivna disse...

Osi, realmente, estou surpresa com teu potencial... Já imaginava que o tivesse, mas esse texto ficou bárbaro... Lindo mesmo!!!
Bjocas!!!

Osi disse...

Valeu, Ivna... B-)
É bom saber que ainda lêem esse blog... rs
Xero.