domingo, 20 de abril de 2008

Giotto - Uma Ponte Entre o Velho e o Novo

Estátua de Giotto, Galeria degli Uffizi (detalhe)

Giotto revolucionou a pintura de sua época, afirmação que se podia ouvir em coro, entoada por amigos, admiradores, escritores e teóricos que eram contemporâneos seus.

Ele redescobriu a arte de criar ilusão de profundidade no plano do quadro. Foi reverenciado ainda em vida, sendo considerado um gênio. Rompeu com o conservadorismo bizantino, traduzindo para a pintura o realismo da escultura gótica.

Dante, amigo de Giotto e outro pilar dessa nova cultura, o admirava e o colocava como “um igual” – como se o reconhecimento de um validasse a competência do outro. Boccaccio, Sacchetti e Villani, por exemplo, falavam de um “renascimento da arte” – considerada morta por séculos, sob a influência bizantina – depois do surgimento de Giotto. Ele recriou o que na Europa ocidental já se havia perdido: a aura clássica.

O pintor se voltou aos clássicos, cujos temas eram essencialmente a natureza e a história – e, com a técnica de aprofundamento de imagens, numa tridimensionalidade mais elaborada, forjou a idéia de que a história estava se repetindo. Através do pensamento histórico, Giotto recuperou a “naturalidade”. Assim pareciam testemunhar os acontecimentos por ele representados. Depois dele, a História da Arte passou a ser também a história dos artistas.

Giotto di Bondone, A Lamentação de Cristo, c. 1305, afresco; Cappella dell'Arena, Pádua

Ambrogiotto di Bondone nasceu em Colle di Vespignano, próximo a Florença, por volta de 1266, e morreu em Florença, em 1337. Pouco se sabe de sua juventude. Pré-renascentista, do Trezentos italiano, séc. XIV, estudou na escola de Florença, e foi discípulo de Cimabue, que superou rapidamente, ofuscando-o. Conta-se que um dia Cimabue passou por Vespignano, indo a Bolonha e, ao ver o rapaz desenhando ovelhas numa pedra, cheio de espanto, perguntou-lhe como se chamava, “chamo-me Giotto e meu pai, Bondone”. Então, Cimabue pediu ao pai do jovem Giotto que lhe confiasse o filho e este, com o tempo, tornou-se o seu melhor discípulo.

Se isso é verdade ou não, pouco importa, já que Giotto carregou outras influências que não estavam em Florença. O que se observa na sua obra é um profundo conhecimento do ambiente romano, de Cavallini, como também da escultura pisana, que encontra seu maior nome em Arnolfo di Cambio – escultor romano do fim século XIII, morto nos primeiros anos do Trezentos, a quem Giotto sucedeu, nomeado arquiteto da construção de Santa Maria del Fiore.

Giotto era um homem do povo e tinha da divindade uma visão humanizada, franciscana. Por outro lado, não se preocupava com a beleza, mas com um tipo de rusticidade suavizada, profunda na substância. O artista pôs o seu pincel a serviço da causa franciscana e suas obras serviram de crônicas da vida do povo de Assis.

Era realista, sem ser óbvio. Era aparentemente simples na estrutura da composição, mas com sutilezas e processos, como o recorte no fundo, a organização dos planos e a sugestão de volumes, através do claro/escuro, que denunciavam rebuscamento. Giotto foi o pintor mais célebre do seu tempo, sintetizando as mudanças ocorridas em sua época.

Bibliografia
GOMBRICH, E.H. A História da Arte. Rio de Janeiro, Ed. LTC, 16ª ed, 1999.
ARGAN, Giulio Carlo. História da Arte Italiana, vol. 2. De Giotto a Leonardo. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

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