domingo, 4 de maio de 2008

O Artesão e o Artista


Fachadas, déc. 1960, têmpera sobre cartão 36,8 x 27 cm

Com poucos recursos, o rapaz – um imigrante italiano, vindo de Lucca –, atravéz de sua experiência como pintor e decorador de paredes, conhecia todos os processos para a fabricação de suas próprias telas. Cortava a madeira, montava bastidores, esticava o tecido. Misturando os pigmentos coloridos com clara e gema de ovo e óleo e cravo, obtinha a têmpera.

A luminosidade e a transparência eram marcantes nas têmperas de Alfredo Volpi e sua pintura construtiva e abstratizante.

Fundindo o imaginário popular brasileiro com a tradição pré-renascentista de Giotto, Volpi alia cores e formas geométricas. Essa descoberta pode ser conferida neste trecho de um ensaio de Marco Giannotti:

Volpi se aproxima da pintura italiana dos séc. XIII e XIV, em particular de Margaritone d’Arezzo, Giotto e Piero della Francesca, (…) A ênfase na dimensão construtivista na arte do século XX faz com que esses artistas passem a ser revalorizados. (…) Durante certo tempo pensei que foi graças a Giotto que Volpi descobriu a têmpera. Mas, pelo contrário, talvez pudéssemos dizer que foi graças ao emprego da têmpera que Volpi redescobriu Giotto.


Fachadas e bandeirinhas, têmpera sobre tela, 100 x 75 cm

Como artesão que fora desde a juventude, Volpi gostava de misturas cores, descobrir tonalidades, texturas, cheiros. Volpi envolvia-se com dedicação, sentia prazer na descoberta. Era meticuloso com suas misturas.

Apreciava a técnica da têmpera-ovo, na qual as tintas eram diluídas em uma emulsão de ovo e verniz, em seguida, adicionava pigmentos ressecados e decantados por ele mesmo – suas telas tinham seu toque, desde a montagem do suporte até a composição da pintura. É do próprio artista que temos uma descrição do seu método:

Só pinto à luz do sol. (...) Não uso pigmentos industriais, que criam mofo, e que com o tempo as cores do quadro perdem a vida.


Faixas e mastros, déc. 1970, têmpera sobre tela 33 x 24 cm

Depois de prontas as tintas, Volpi testava cada uma, experimentando e checando a densidade e a durabilidade. Quando percebia que a cor obtida e desejada permanecia firme, sem alteração, era que usava para pintar. Caso isso não funcionasse, começava tudo de novo.

A têmpera é a tinta mais antiga de que se tem conhecimento. Na Pré-história misturava-se água e pigmentos naturais, que costumavam ser misturados à gordura de animais. Na Antigüidade, Idade Média e Renascimento, a têmpera-ovo foi muito utilizada na produção de iluminuras e pinturas sobre madeira.

O mais antigo e natural tipo de emulsão de têmpera é a gema de ovo. (…) A gema de ovo é um exemplo de uma veículo de tinta que contém uma substância não-secativa ou semisecativa misturada com uma substância de secagem rápida, resultando numa mistura de secagem bem sucedida.

Notas
1 GIANNOTTI, M. G. . Volpi ou a Reinvenção da Têmpera. Ars Revista de Pós Graduação do Departamento de Artes Visuais, São Paulo, SP, 2006, p. 73-74.
2 MAYER, Ralph. Manual do artista de técnicas e matérias. São Paulo, Martins Fontes, 1996, p. 289.


Bibliografia
GIANNOTTI, M. G. . Volpi ou a Reinvenção da Têmpera. Ars Revista de Pós Graduação do Departamento de Artes Visuais, São Paulo, SP, 2006.
MAYER, Ralph. Manual do artista de técnicas e matérias. São Paulo, Martins Fontes, 1996.