segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Kurt Schwitters: O Senhor Merz das Colagens

Agitador cultural, arquiteto, dramaturgo, crítico, editor, ensaísta, escultor, pintor, poeta, prosador, publicitário e teórico, Kurt Schwitters (1887-1948) fez de sua inquietude uma grande construção. Sua obra, em grande parte feita de elementos pouco usuais como bilhetes de ônibus, recortes de jornais, trapos e outros objetos descartados pela sociedade de consumo, mostrou o olhar atento desse artista Merz.

Schwitters nasceu em Hannover, Alemanha, e formou-se em artes plásticas em Dresden, em 1914. Em Berlim, em 1917, enquanto fazia uma exposição com Klee, conheceu o grupo da revista Der Sturm, que publicava trabalhos de vanguarda – expressionismo, cubismo, futurismo e dadaísmo. Apesar do seu trabalho ser a colagem cubista, sua maior identificação se deu com o dadaísmo, mesmo ele nunca tendo sido partidário da negação Dada da artisticidade.


Sem título (Entrada para Opherdicke na Neve 1), 1916/17, óleo sobre cartão, 33 x 25,1 cm, Coleção Kurt und Ernst Schwitters Stiftung, Hannover.

Até então, Kurt Schwitters escrevia poemas neo-românticos e pintava ao estilo dos naturalistas. Só depois de conhecer a poesia de Stramm, as teorias de Marinetti e a liberdade dos dadaístas, é que sua poesia transcendeu as tendências mais tradicionais. Desse encontro, surgiram pinturas abstratas e poemas que parodiavam o estilo expressionista de Stramm.

Merz 3. Portifólio Merz. Primeiro Portifólio da Editora Merz. Seis Litografias, 1923, tipografia, colagem e litografia sobre papel, 44,4 x 55,5 cm, Coleção Kurt und Ernst Schwitters Stiftung, Hannover.

Considerado o único representante do movimento Dada em Hannover, Schwitters conviveu por um tempo com os dadaístas Arp, Tzara e Hausmann, e participou de soirées Dada pela Europa. Apesar disso, não aderiu completamente ao dadaísmo. Rejeitado pelo grupo, criou uma ordem estética própria: Merz.

Plastik | Escultura, 1923 (1983), escultura, bronze, pintada, ex. 2/7, 51 x 12,8 x 14 cm, Coleção Kurt und Ernst Schwitters Stiftung, Hannover.

Tirada de um de seus quadros, no qual aparece e ao qual dá nome, a palavra ‘Merz’ (pedaço de Kommerzbank, Banco de Comércio), nada significa, assim como Dada, e por isso acabou sendo usada para nomear o que foi considerada a extensão do dadaísmo em Hannover. Mas, na verdade, "Merz" foi criada para batizar as pinturas-colagens de Schwitters e uma revista que dirigiu de 1923 a 1932. Nessa época, juntaram-se a Schwitters, em Hannover, El Lissitzky, Mondrian e Van Doesburg.

Sem Título (Speckgumm), c.a. 1925, colagem, papel sobre papel, 9,8 x 13 cm, Coleção Kurt und Ernst Schwitters Stiftung, Hannover.

De características tanto dadaístas quanto cubistas, o trabalho de Kurt Schwitters, foi influenciado também pelos artistas da Bauhaus e, mais tarde, pelo construtivismo russo. Com o tempo, seu trabalho se tornaria um tipo muito peculiar, que não se encaixaria nos movimentos da época – daí a necessidade de ter um nome próprio. Por mais que alguns o achassem dadaísta, ele era Merz.

Sem Título (FEBRUAR), 1929, colagem, pigmento, celofane e papel sobre cartão, 16,7 x 21,9 cm, Coleção Kurt und Ernst Schwitters Stiftung, Hannover.

Aliando forma e conceito, o artista conseguiu fazer do lixo algo novo. Como no Dada, sua arte vinha do acaso, mas de um acaso racionalizado. Ele dava vida nova a objetos descartados por uma sociedade cada vez mais dinâmica e voraz em seu consumo. Esses dejetos da sociedade, que até então tinham um prazo de validade extremamente curto, passaram a ter vida eterna nos quadros e instalações de Schwitters. Era a sua crítica e colaboração a esse tempo de escassez e, ao mesmo tempo, de desperdício e destruição, como conta o próprio: "O material utilizado é irrelevante; o essencial é a forma. Por isso, utilizo qualquer material, contanto que a obra exija".

Tema Maraak, 1930, óleo e lápis sobre cartão, 36,8 x 45,6 cm, coleção Kurt und Ernst Schwitters Stiftung, Hannover.

Seu trabalho não era politizado, no sentido mais estreito da palavra. Suas críticas tinham um cunho mais social, principalmente quando o lixo era utilizado para gerar arte. Era uma resposta à inércia burguesa da época. Mesmo assim, Kurt Schwitters representou um perigo para o nazismo. Foi por isso que, em 1936, sua obra foi rotulada como arte degenerada. Seus trabalhos foram retirados de museus e destruídos.

Sem Título (A Máquina Preta-vermelha-ouro), 1930/31, colagem, papel sobre papel, 8,3 x 10,8 cm, Coleção Kurt und Ernst Schwitters Stiftung, Hannover.

Em 1937, percebendo a iminência de maiores problemas, Schwitters partiu com o filho Ernst para o exílio, na Noruega. Dias depois, seu apartamento foi invadido pela Gestapo e seu Mezbau, instalação feita também de sucata e outros objetos, foi destruído.

Quadro de Lâmpadas, 1931/32, relevo, óleo e madeira sobre madeira, 43,1 x 54 x 9,6 cm, Coleção Kurt und Ernst Schwitters Stiftung, Hannover.

Em seu novo endereço, compôs um novo Mezbau, que seria também destruído, em 1940, quando a Alemanha invadiu o território norueguês. Novamente, Schwitters conseguiu fugir dos nazistas, chegando à Inglaterra, onde passou dificuldades, falecendo em 1948.

Sem Título (Pôster do MERZ WERBEZENTRALE), 1934, colagem, papel sobre papel, 12,4 x 20 cm, Coleção Kurt und Ernst Schwitters Stiftung, Hannover.

Sua estética Merz ainda se apresentou na literatura e na música. Schwitters escreveu poemas que eram grandes colagens de palavras e idéias catadas ao léu, cacos do cotidiano. Sua poesia Merz causou polêmica entre leigos e literatos. Mas ele era coerente. Todo o seu trabalho, tanto na literatura quanto na pintura, era essa colagem que remontava uma sociedade, como um espelho que teima em apresentar o reflexo feio e cru que queremos negar.





Sem Título (RS), 1945/46, colagem, papel, Stoff e cartão, 15,2 x 18,2 cm, Coleção Kurt und Ernst Schwitters Stiftung, Hannover.


Para Ernst, 1947, colagem, tela, pluma, papel rendado e papel sobre papel, 10,2 x 12 cm, Coleção Kurt und Ernst Schwitters Stiftung, Hannover.

Bibliografia
ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
CHIPP, Herschel Browning. Teorias da Arte Moderna. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
MACCHI, Fabiana. Kurt Schwitters: o Dadaísta que Era Merz http://www.germinaliteratura.com.br/sibila2005_kurtschwitters.htm

[ IMAGENS ]
Site do Museu Oscar Niemeyer. Exposição Kurt Schwitters, 2007. http://www.pr.gov.br/mon/exposicoes/kurt_schwitters_fotos.html

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