sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Relatório: suporte, base de preparação e camada de pintura

1.Confecção do suporte


A tela foi confeccionada a partir de um chassi de 66 x 54 cm (fornecido pela professora), chanfrado e com sistema de cunhas. O chassi apresentava alguns problemas estruturais: a madeira estava empenada em um dos lados; apresentava pouca segurança em suas junções, desmontando-se facilmente e impossibilitando o uso das cunhas – a solução encontrada foi grampear seus cantos, travando as cunhas e seu sistema de ajuste da tela.

O tecido escolhido foi a juta1, que, logo no início se mostrou um material problemático, de difícil manuseio – desde o momento de esticá-lo sobre o chassi até as aplicações de base de preparação e pigmento –, não permitindo que a fibra do tecido se mantivesse paralela ao chassi. A juta logo ficou frouxa, o que atrapalharia bastante a fase de preparação de base da pintura, exigindo, pra se ter um melhor desempenho, várias camadas sobre o tecido.

2.Base de preparação


Para esta etapa, como se pode ver na figura acima, a tela foi dividida em 10 partes, de diferentes tamanhos, a fim de averiguar o comportamento dos materiais sobre o tecido. Foi preservada, ao centro, uma área para referência, isto é, sem aplicação de base de preparação. Considerei isso importante para conferir os resultados finais de todo o trabalho.

As diferenças de tons de branco nas áreas da ilustração acima esquematizam os resultados, no que diz respeito ao poder de cobertura das substâncias aplicadas.

Para a base de preparação foram utilizados:
- gesso
- tinta látex base água (Suvinil)
- gelatina
- cola de coelho
- água

2.1.Gesso e água


Com a aplicação de apenas 1 camada de gesso2 e água (figura acima) logo percebi que não seria possível ter uma boa base. Essa composição, junto a um tecido de trama tão aberta, resultou em uma superfície frágil, pouco resistente, até aos mais leves atritos, com pouco poder de cobertura e com pouca adesão ao tecido.

A ausência de um componente que fizesse as vezes da cola fez com que, logo que evaporada a água, a camada de gesso se tornasse sensível e quebradiça3.

2.2.Gesso e Suvinil


Com o gesso e a tinta látex (Suvinil) a base ganhou sustentabilidade mas, como o tecido ficou frouxo, logo grudou no chassi – mesmo sendo chanfrado.

Essa composição tem mais poder de cobertura, por isso achei que seria bom fazer uma nova tentativa, colocando mais camadas. Uma nova área daria a oportunidade de conferir as diferenças entre 1 e mais de 1 aplicações e refazer o processo, evitando que a tela grudasse no chassi, como da primeira vez.

2.3.Gesso e Suvinil (2 aplicações)


Com o gesso e o látex aplicados 2 vezes a base ganhou ainda mais sustentabilidade. Além disso, depois de seca, com uma lixa fina, tentei alisar a superfície. Logo percebi que seriam necessárias novas camadas de gesso e látex, assim, vendo que a superfície estava totalmente branca e espessa, apliquei apenas uma camada de Suvinil. O resultado foi uma superfície mais rígida e resistente.

2.4.Gesso e cola de coelho (1 aplicação)


Com pouco poder de cobertura e rala, essa composição foi rapidamente absorvida pelo tecido, trespassando a trama, quase que escorrendo por inteiro na mesa.

Resultou em uma camada fina, porém dura e resistente, mas inadequada à função de base para pintura, somada à juta.

2.5.Gesso e cola de coelho (2 aplicações)


Aqui, o poder de cobertura aumentou, mas suas características principais, não. Para se ter uma boa base de pintura, seria necessário acrescentar outra(s) substância(s), a fim de se ter uma superfície lisa e bem estruturada.

2.6.Suvinil (1 aplicação)


Com apenas 1 aplicação de tinta látex (Suvinil) temos uma camada fina, com bastante poder de cobertura e adesão ao tecido.

2.7.Suvinil (2 aplicações)


Com 2 aplicações de tinta látex (Suvinil) temos uma camada mais espessa, com bastante poder de cobertura e adesão ao tecido, mas ainda quebradiça.

3.Camada de pintura


Para as camadas de pintura a técnica escolhida foi a têmpera4, mais especificamente a têmpera ovo5.

Para ter-se o maior leque de possibilidades, foram aplicadas as seguintes variações:
- pigmento + clara de ovo + tinta látex
- pigmento + gema de ovo + tinta látex
- pigmento + clara de ovo + água
- pigmento + gema de ovo + água
- pigmento + clara de ovo
- pigmento + gema de ovo

Em todos os casos, foi excluído o fundicida.

Esquema das aplicações das camadas de pintura


3.1.Pigmento, clara de ovo e tinta látex

|...........1...........|...........2...........|.......................3.......................|

A têmpera à base de clara de ovo e tinta látex apresenta pouca aglutinação. O pigmento não se mistura completamente, formando pequenas bolotas de pigmento. A cor é fosca.

O poder de cobertura vai de eficiente, na base de gesso e água (1); razoável, na base de gesso e tinta látex (2); e ralo na base com 2 aplicações de gesso e tinta látex (3).

3.2.Pigmento, gema de ovo e tinta látex

|...........1...........|...........2...........|.......................3.......................|

A gema de ovo aglutina bem o pigmento. É consistente e concentrada. Brilhante, apresenta, por causa do branco do látex, alteração na cor.

O poder de cobertura se mantém uniforme em todas a áreas aplicadas.

3.3.Pigmento, clara de ovo e água

|...........1...........|...........2...........|.......................3.......................|

A têmpera à base de clara de ovo e água apresenta pouca aglutinação. O pigmento não se mistura, formando bolotas de pigmento.

Apresenta pouco poder de cobertura em todas as áreas aplicadas.

3.4.Pigmento, gema de ovo e água

|...........1...........|...........2...........|.......................3.......................|

A gema de ovo aglutina bem o pigmento, mas perde consistência e concentração. É fosca e apresenta pouco poder de cobertura em todas as áreas aplicadas.

3.5.Pigmento e clara de ovo

|...........1...........|...........2...........|.......................3.......................|

A têmpera à base de clara de ovo apresenta pouca aglutinação. O pigmento não se mistura completamente, formando pequenas bolotas de pigmento.

O poder de cobertura vai do ótimo, na base de gesso e água (1), ruim, na base de gesso e tinta látex (2); e muito ralo, na base com 2 aplicações de gesso e tinta látex (3).

3.6.Pigmento e gema de ovo

|...........1...........|...........2...........|.......................3.......................|

A gema de ovo aglutina bem o pigmento. É consistente e concentrada. Brilhante, tem ótimo poder de cobertura, que se mantém uniforme em todas a áreas aplicadas.

Notas
1 A Juta (Corchorus capsularis) é uma fibra têxtil vegetal que provém da família Tilioideae. Esta erva lenhosa alcança uma altura de 3 a 4 metros e o seu talo tem uma grossura de aproximadamente 20 mm, crescendo em climas úmidos e tropicais. A época de semear varia, segundo a natureza e o clima.
As plantas florescem 4 a 5 meses depois de semeadas e inicia-se imediatamente a colheita. A fibra útil é contida entre a casca e o talo interno e a extração é feita pelo processo da maceração. As árvores cortadas rente ao solo por meio de foices, são limpas das folhas, postas em feixes dentro da água corrente ou parada.
A alta temperatura das regiões nas quais é cultivada favorece a fermentação e desta forma consegue-se a maceração em 8 a 10 dias, permitindo assim a facil retirada da casca da planta e separação da fibra da parte lenhosa do talo. Enxagua-se e empacota-se.
As melhores qualidades de juta distinguem-se pela robustez das fibras e pela cor branca e brilhante do talo; as qualidades inferiores distinguem-se pela côr dos talos, que são mais escuros, pelo menor comprimento das fibras, de côr mais acinzentada, ao par de terem menor resistência.
O comprimento das células elementares da juta é em média de 0,80 mm, e o diâmetro varia de 0,01 a 0,03 mm.
Analisadas as fibras da juta temos: Cinza (0,70%), Água (9,72%), Gorduras Cerosas (0,36%), extrato aquoso (1,06%), Celulose (64,10%), Substâncias incrustantes (24,06%).
Dada a proporção centesimal das substâncias orgânicas da juta temos: Carbono (46,30%), Oxigênio (47,60%), Hidrogênio (6,10%)
Como podemos ver pela análise da juta, o seu principal componente é a celulose, sob a forma de linho-celulose. A juta tem boa afinidade para corantes diretos e para corantes básicos. É muito higroscópica, regulando a umidade em 12%, o que a torna a matéria prima ideal para a sacaria, evitando tanto o ressecamento quanto a fermentação do produto acondicionado.
É uma cultura fácil, acompanhada de uma maceração trabalhosa e de pouco rendimento, sem a utilização de agrotóxicos ou fertilizantes.
Introduzida no Brasil por Riyota Oyama, a cultura foi feita inicialmente por japoneses, tornando-se a seguir uma das principais atividades econômicas das populações ribeirinhas da região amazônica, sendo um fator fundamental da fixação de mais de 50 mil famílias ao campo.
WIKIPÉDIA, Categorias: Esboços sobre botânica | Tilioideae

2 O gesso é uma substância, normalmente vendida na forma de um pó branco, produzida a partir do mineral gipsita (também denominada gesso), composto basicamente de sulfato de cálcio hidratado. Quando a gipsita é esmagada e calcinada, ela perde água, formando o gesso.
2[CaSO4.2H2O] → 2[CaSO4.½H2O] + 3H2O

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3 Misturado com água, endurece rapidamente, adquirindo forma definitiva de oito a doze minutos. Existem vários tipos de gesso, cada um preparado para uma determinada função: cerâmica, decoração, moldes dentários e também na modelagem e fixação de placas para forro e na fundição de molduras.
Devido à sua facilidade em absorver água, mantém a umidade do ar em áreas fechadas, além de apresentar isolamento térmico e acústico.
WIKIPÉDIA, Categorias: Materiais | Ortopedia | Química

4 NO USO MODERNO do termo, a pintura a têmpera é aquela que emprega um medium que pode ser livremente diluído com água, mas que após secar torna-se suficientemente insolúvel para permitir sobrepinturas com mais têmpera ou com mediuns de óleo e verniz.
MAYER, Ralph. Manual do artista de técnicas e matérias. São Paulo, Martins Fontes, 1996, p. 287.

5 O mais antigo e natural tipo de emulsão de têmpra é a gema de ovo. As gemas dos ovos de galinha contêm uma solução aquosa de substância gomosa, albumina, um óleo não-secativo chamado óleo de ovo, e lecitina, um lipóide ou substância gordurosa que é um dos emulsificadores ou estabilizadores mais eficientes da natureza.
MAYER, Ralph. Manual do artista de técnicas e matérias. São Paulo, Martins Fontes, 1996, p. 289.

4.Bibliografia
MAYER, Ralph. Manual do artista de técnicas e matérias. São Paulo, Martins Fontes, 1996.

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