sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Tarkovski; A Festa de Babette; e Balzac e a Costureirinha Chinesa


Através da leitura do texto ARTE: anseio pelo ideal, de Andrei Tarkovski, pode-se destacar alguns conceitos-chave, importantes para o entendimento aproximado de quais seriam as principais questões da produção artística, como veremos a seguir.

O primeiro conceito trata da relação arte/consumidor e seu papel funcional. O autor relativiza, mostrando que, sem o comprometimento com a arte – mas sim, com o mercado –, não há como se chegar a uma resposta convincente.

Segundo Tarkovski, a função da arte está diretamente ligada ao auto-conhecimento e ao conhecimento do mundo à nossa volta, tanto para o público quanto para o próprio artista. A arte dá significado, porém não dá respostas. Ela propõe questões.

Foi assim que Luo, personagem do filme Balzac e a Costureirinha Chinesa, fez com a tal costureirinha, de uma aldeia isolada em uma China comanda por Mao, levantasse questões existenciais, até então adormecidas em seu microcosmo. “Sinto que o mundo mudou”, disse a costureirinha, após ler Balzac. Após chegar a tal nível de indagação, a moça tenta transcender sua existência naquele lugar longínquo.

Outro conceito importante no texto, que não deixa de estar relacionado ao primeiro, mostra a rivalidade entre duas formas de conhecimento: o científico e o estético. No científico, característico do plano práxis, onde circulam as atividades materiais e intelectuais, predomina o pragmatismo. No campo estético, a arte revela uma “verdade espiritual absoluta”1, escondida em nossas atividades ordinárias. É o campo da poiesis que dá significado à nossa existência. Isso também pode ser visto no filme acima citado, já que no período em que se passa a história, a China está sob o regime comunista de Mao. Na vila onde jovens burgueses são “reeducados”, qualquer atividade intelectual é vista como um ato burguês, portanto, contra o sistema. Luo e Ma precisam ser espertos para manter o violino que trazem na bagagem intacto. Assim como para praticar o ato de recontar os filmes que vêem na cidade ou para ler livros ocidentais. Uma pseudo-arte é usada na propaganda, o que para Tarkovski não deveria acontecer, já que a propaganda política se dá de forma unilateral, diferentemente da arte, multilateral – eu prefiro comparar a arte, como a literatura, com uma cebola: só é possível se fazer arte se esta tiver várias camadas. Quanto mais externa for a camada, mais rasa será a análise da obra. A arte deve propiciar camadas para que qualquer um, leigo ou iniciado, possa ler e aproveitar da maneira que melhor o convir.

Um conceito que também vale destacar é o da arte como meio de comunicação. A arte transita em torno de si e do mundo para comunicar, através do endendimento mútuo – segundo o autor, uma “força a unir as pessoas”2. A negação dessa função – ou até mesmo o entendimento dela – faz com que os livros sejam proibidos na vila de reeducação, fazendo com que o personagem “Quatro Olhos” seja obrigado a esconder seus livros “burgueses”. É o que ainda o liga ao seu mundo, por sua vez, aberto ao mundo exterior. Seu romances prediletos o mantém íntegro, ainda que pareça um bom “aluno” para os seus instrutores.

Em outro momento do texto de Tarkovski, o autor relaciona a intuição, presente na arte e na religião, com a fé. A fé se opõe à racionalidade quando não precisa de uma experiência empírica como força motriz. A arte não convence, no sentido mais restrito da palavra. Ela emociona, choca, mas não explica nem é explicada com exatidão. Suas várias camadas dão várias interpretações que, ao contrário do que aconteceria na ciência, não a desprestigia, só a engrandece.

A meu ver, esse ponto pode ser relacionado com o filme A Festa de Babette. Babette, com seu banquete francês, na casa das irmãs Martina e Phillippa – em comemoração ao aniversário do pai das irmãs, já falecido –, onde trabalha como doméstica, expressa sua arte, por anos escondida. Os convidados, devotos fervorosos, se negam qualquer prazer tido como terreno. Eis que um convidado, distoante dos demais, um general, faz elogios emocionados ao jantar. Em certo momento, ele chega a se referir ao banquete como algo que liga o terreno ao celestial. Para ele, é um ato sagrado. Deliciar-se com tais iguarias, com aquele cuidado e esmero no preparo, é um ato santo. Babette, a “artista”, mostra o seu universo, até então desconhecido, e converte os demais convivas, tornando-os até mais compreensivos, uns com os outros.

Mas engana-se quem acha que todo esse trabalho as ensinou objetivamente. Para Tarkovski, a arte não ensina, mas prepara a alma humana, tornando-a “receptiva ao bem”3. Foi assim que se deu a transformação. Assim, a compreensão venceu a barreria da intolerância, não por ter-lhes dado um veredito sobre as suas arengas, mas por tê-los feito ver a necesssidade de um julgamento multilateral.

Como aconteceu com Babette e com Luo, o artista também gera mudanças em seu entorno. A arte, apesar de não dar respostas, faz pensar, refletir, obriga a parar um pouco – mesmo aqueles que só chegam à sua primeira camada.

Notas
1 TARKOVSKI, Andrei apud STERZI, Alessandra (org.). O Homem. A Arte. Temas da Cultura Contemporânea, São Paulo: apostila (FASM), 2008, p. 7.
2 Ibidem, p. 8.
3 Ibidem, p. 13.

Bibliografia
STERZI, Alessandra (org.). O Homem. A Arte. Temas da Cultura Contemporânea, São Paulo: apostila, 2008, p. 6 a 16.

2 comentários:

A cria de Saturno disse...

Osiiiii, vou passar a freqüentar mais o teu blogger... Achei incrível esse texto, inclusive alguns pontos citados, deram uma luz para o meu tcc...
Um beijãoooooo!!!!

Osi disse...

Que legal que você gostou, Ivna! B-)
Beijo.