quarta-feira, 8 de abril de 2009

El Greco, a Metamorfose da Luz


Enterro do Conde de Orgaz, 1586-1588. Óleo sobre tela. Igreja de São Tomé, Toledo, Espanha.

A Associação de Texturas

“A beleza do corpo não consiste na sombra da matéria, mas na claridade e na graça da forma, não na massa obscura, mas em uma espécie de harmonia luminosa...”1


Nessa frase de Marsilio Ficino, se explicita e se sintetiza o pensamento renascentista, no que diz respeito à oposição entre o divino e o terreno; o claro e o escuro; o transparente e o turvo, mais do que isso, o desejo de conquistar a representação perfeita de uma “realidade cristalina”2. El Greco, opondo-se a essa idéia, passa a inserir em seus trabalhos uma marca de que aquilo foi feito por um homem - sem o compromisso de tentar representar a realidade, tal qual ela se apresenta aos olhos do artista -, expondo, assim, toda o processo pictórico do trabalho. Ele mostra tudo o que o Renascentismo escondeu: a tela, a tinta e principalmente a pincelada.

Como uma espécie de escultor, de modelador, Domenikos Theotokopoulos não só deixa massas de tinta na tela, ele também torce e forja as massas pictóricas. Tudo ganha força e tensão. Tudo ganha expressividade e dramaticidade. El Greco não se molda ao pensamento da época, ele molda, sim, esse pensamento à sua própria visão de expressão artística.

Ver uma pintura de El Greco é quase como ver uma gravação: “Desde que o olho possa seguir todos os golpes do pincel, a mente poderá recuperar os gestos do artista...”3. Está tudo lá, na tela. O trabalho manual se mostra em alto-relevo, refletindo a luz, dando volume.

Voltando à idéia de forjar massas - sejam elas em relevo e/ou pictóricas -, a obra Enterro do Conde de Orgaz parece bem adequada e representativa. A tela em si, sobretudo na parte superior, tem uma forma conjunta muito expressiva, sólida e coesa - não sendo rompida nem mesmo pela fila de cabeças. Dá para ver no todo o peso e a dor que se percebe nas suas partes (elementos/figuras da pintura), isoladamente. A falta de ponto de fuga evidencia a idéia de uma grande massa dramática, suspensa no ar - já que até a base (chão) foi eliminada.

As nuvens parecem rochas, sustentando a cena superior. A luz, vinda de vários pontos, reflete por vezes intensamente branca, num forte contraste, ao mesmo tempo opaco, seco. Ainda na parte superior, Domenikos Theotokopoulos faz, intuitivamente, efeitos de tensão e fusão, usando as complementares amarelo e roxo.

Nos seus elementos, em pequenos detalhes, vemos mensagens, ora em acordo, ora em direções distintas. Esse é o caso das mãos abertas, observado por Naves, na parte inferior da tela, apontadas para as mais diversas direções, desafiando aqueles que tentem encontrar uma perspectiva. Sem perspectiva parece um termo também adequado às figuras, donas dessas mãos espalmadas, que não demostram nenhuma expressividade.

Como disse Naves, a solidez das texturas paralisa praticamente toda a tela, deixando em supenso a noção de tempo e espaço.

Notas
1 – FICINO, Marsilio apud NAVES, Rodrigo. El Greco, O Mundo Turvo. São Paulo, Ed. Brasiliense, 1985, p. 12.
2 – NAVES, Rodrigo. idem.
3 – FRY, Roger apud NAVES, Rodrigo. ibidem, p. 22.

Bibliografia
NAVES, Rodrigo. El Greco, O Mundo Turvo. São Paulo, Ed. Brasiliense, 1985

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