domingo, 12 de abril de 2009

Tarsila e Lasar, Olhares sobre um Mundo em Ebulição



As exposições Tarsila Viajante e Segall Realista, de 2008 e já encerradas, mostraram mais do que as viagens da artista paulista ou a fase realista do artista lituano, naturalizado brasileiro. Elas revelaram olhares sensíveis sobre o mundo que os cercavam.

Tarsila do Amaral, em suas viagens pelo Brasil e pelo exterior, se faz valer de suas recordações da infância e de uma observação minuciosa da natureza, da arquitetura e do homem, sobretudo as transformações da sociedade. O hábito de desenhar o que vê em bloquinhos, ou em qualquer pedaço de papel, aprendido com Pedro Alexandrino1, se torna fundamental para a elaboração de suas obras.

Há nesses “anos de formação”2, pinturas impressionistas e cubistas. É a busca da artista por um modo próprio de pintar. Paulatinamente, seu desenho ganha o traço e o recorte típicos de sua fase mais conhecida. É um refinamento do desenho e do olhar.

O amadurecimento de Tarsila começa a surgir a partir de sua viagem por parte do Brasil, principalmente o interior de Minas Gerais. Dos desenhos que registraram essa viagem, resulta a descoberta da sua linguagem, que se projetaria durante toda a década de 20, período em que mais ativamente contribui com a arte brasileira.

Lasar Segall, nascido na Lituânia – território, à época, dominado pela então Rússia czarista –, estudou pintura na Alemanha. Vindo de uma situação de medo e insegurança na Europa, provenientes dos conflitos da Primeira Guerra Mundial, Segall encontra aqui a acolhida dos artistas locais. Ele expõe seus trabalhos em 1913, “um dos primeiros acontecimentos precursores da arte moderna no Brasil”3.

O artista procura expressar as paixões e os sofrimentos do ser humano, com o seu traço esquinado e suas cores fortes. Judeu, sentiu na pele as dificuldades por fazer parte desse grupo perseguido.

Já Tarsila do Amaral trata em obras como A Negra, de 1923; Carnaval em Madureira, E.F.C.B., São Paulo (Gazo), São Paulo, Morro da Favela, de 1924; e O Mamoeiro, 1925, de temas que, ora falam das mudanças sociais, ora dos costumes interioranos. Nesses trabalhos, as camadas mais pobres e o progresso técnico são temas abordados. Há o conjunto de raízes nacionais e linguagem contemporânea internacional, refletindo o espírito da época. Como disse Mário de Andrade, “dentro da história da nossa pintura ela foi a primeira que conseguiu realizar uma obra de realidade nacional”4.

Nessas observações dos rumos das sociedades que os trabalhos de Lasar Segall e de Tarsila do Amaral se cruzam. Mas nem só das visões de “dentro de casa” se alimentam as suas obras. Em suas viagens, o olhar atento se faz presente, se sensibiliza e se mostra em trabalhos ricos de significados.

Se na Europa daqueles tempos era difícil ser judeu, aqui, ser negro não era diferente. Segall, possivelmente simpático às causas de grupos perseguidos, vê no negro brasileiro uma forte identidade com a sua própria história, chegando a se retratar mulato, em um de seus quadros. As cores cada vez mais intensas, assumindo o lugar dos tons quentes, porém rebaixados, de sua fase européia, surgem inicialmente nos cenários, com folhas verdes, céus vespertinos e flores coloridas. O negro é quem dá cor às figuras humanas. As cores vibrantes não trazem “alegria” às suas telas. O tom melancólico reside, mostrando a face real da nação – resistir a representar o povo alegre e hospitaleiro do Brasil não chega a ser um mérito seu, pois essa imagem ainda não era explorada, como veríamos nas décadas seguintes e ainda nos dias de hoje.

Falar do negro entre meados dos anos 1920 e 1930 no Brasil significava discutir o que era o povo brasileiro. Período rico em discussões nacionalistas, sejam nas artes, na literatura ou nas ciências humanas, o estudo e a busca da nossa identidade estava em voga. “E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-mundi do Brasil”5. A Negra, de Tarsila, e Morro Vermelho, de Segall, são obras que marcam as impressões de quem pensava o Brasil como povo, seja como nativo ou estrangeiro.

Em uma espécie de inversão de papéis inconsciente, Tarsila, quando sai do Brasil, também tenta entender o que vê. Seu olhar estrangeiro não impede que ela alie o que a ela se apresenta com o que acontecia aqui. Duas obras marcam esse pensamento: Operários e Segunda Classe, ambos de 1933. Resultados de sua viagem à já União Soviética.

As duas exposições atenderam às suas propostas. Tarsila Viajante conseguiu abranger grande parte da produção da artista no período de suas viagens e até mais, assim como Segall Realista, que transitou do expressionismo à sua fase mais naturalista, chegando ao seu último ciclo de pinturas, com as séries Erradias, Florestas e Favelas.

Notas
1 – Professor de Tarsila, em 1917. Seus métodos acadêmicos de ensino da pintura seriam logo abandonados pela artista, que foi para o cubismo, fase pela artista chamada de “serviço militar”.
2 – O termo dá nome à sala onde se encontram os primeiros trabalhos da artista, na exposição Tarsila Viajante, na Pinacoteca do Estado de São Paulo.
3 – PROENÇA, Graça. História da Arte. São Paulo, ed. Ática, 1991, p. 230.
4 – AMARAL, Aracy (texto e cronologia). Tarsila do Amaral – Projeto Cultural Artistas do Mercosul. São Paulo: Fundação Finambrás, p. 3.
5 – ANDRADE, Oswald de apud AMARAL, Aracy. Tarsila do Amaral – Projeto Cultural Artistas do Mercosul. São Paulo: Fundação Finambrás, p. 3.

Bibliografia
AMARAL, Aracy (texto e cronologia). Tarsila do Amaral – Projeto Cultural Artistas do Mercosul. São Paulo, Fundação Finambrás, s/d.
PROENÇA, Graça. História da Arte. São Paulo, ed. Ática, 1991.
Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand. Brasil – Psicanálise & Modernismo. São Paulo, s/d (catálogo)

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