quinta-feira, 2 de julho de 2009

Referente

Falar do próprio trabalho é sempre mais difícil do que falar do trabalho dos outros – eu acho que isso é um consenso. É um exercício de auto-análise e de auto-conhecimento. Essa busca por referências está trazendo algumas surpresas. De repente, eu me pego fazendo relações entre coisas que aparentemente não dialogavam, mas que estão muito ligadas. Buscar essas referências está sendo um desafio prazeroso e revelador.

Ao tentar encontrar aquilo que mais diz respeito ao meu trabalho de estudante de artes plásticas – uma produção que apenas começa a se desenhar –, eu tentei chegar ao que seria a gênese desse pensamento artístico e encontrei um comportamento que persiste em mim, desde a minha infância, que é o de customizar as coisas ao me redor.

Desde criança, quase tudo o que passou pelas minhas mãos sofreu alguma transformação. Os quadrinhos da Disney que painho comprava para mim eram lidos e depois tinham suas figuras recortadas, para a criação de novas histórias. Os soldadinhos de plástico sofriam algumas alterações, como ter suas armas e bases de sustentação retiradas à estilete e, em alguns casos, ganhar outros acessórios, como capas feitas de bexiga, coletes de bico de chupeta ou espadas de rebites. O campo de botão foi aposentado para dar lugar à uma micro cidade, desenhada em planta baixa com giz de cera, por detrás do campo. Os habitantes dessa cidadela, os muquiluquianos – nome retirado de um episódio de Alf, o ETeimoso, se não me falha a memória – foram feitos a partir dos à época bastante populares “pinos mágicos”, que eu e meu irmão cortávamos para esculpir as figuras, e às quais ainda adicionávamos um bico de spray ou pinos de um mosaico para fazer as vezes de chapéu, cabelo e até bigode.

Pinos Mágicos, da fabricante de brinquedos Elka

Olhando em retrospecto, esse modo de lidar com os objetos à minha volta me parece uma constante na minha vida. Essa constância me dá uma sensação de coerência muito agradável, porque mostra que apesar da sensação de estar pisando num terreno muitas vezes movediço, ele também pode se mostrar firme e amigável, porque é reconhecível, familiar.

Quando recebemos a proposta de escrever um texto que procurasse referências para o nosso trabalho, me vieram logo à cabeça referências puramente artísticas, até a proposta ser plenamente explicada e eu entender que havia uma idéia mais ampla nessa pesquisa.

Guto Lacaz, estudos para a série “Revolta dos Produtos”

Desde o primeiro ano de faculdade, em 2007, nas aulas da professora Inês Raphaelian, eu sinto que o meu pensamento está muito ligado ao de Guto Lacaz.

Lacaz tem um humor e uma inteligência nas relações sugeridas em suas obras que muito me atraem e que eu busco trazer para o meu trabalho.

Foi assim com “Copo Americano” (um copo americano pintado com faixas em vermelho, azul e branco), um trabalho que traz o cinismo de se chamar “copo americano”, mas que também remete à idéia que Caetano Veloso dá dos norte-americanos, quando fala na sua música “Americanos” que eles “representam boa parte da alegria neste mundo”. É um encontro, onde as cores da bandeira americana envolvem a forma praticamente institucionalizada do mais perfeito recipiente para a cervejinha do boteco.

Piet Mondrian, Composição com Vermelho, Amarelo e Azul, 1921, óleo sobre tela, 80 x 50 cm, Gemeentemuseum, Haia

É quase uma brincadeira – de gente grande – olhar o mundo à sua volta e romper com os significados das coisas nele existentes, subvertendo suas funções e formas. E eu acredito que isso acontece em “Plástico”, onde tampas de potes de sorvete presas a uma placa de fórmica preta sugerem em suas cores fortes um pensamento pictórico. Esse trabalho deixa de ser apenas escultura para se tornar um pouco pintura. Suas formas cortadas pelas linhas pretas da fórmica remetem a Piet Mondrian e suas composições em cores primárias, organizadas em linhas verticais e horizontais. O fato de estar usando o plástico em estado industrializado pode remeter também a Kurt Schwitters com suas colagens com papéis e sucatas de toda ordem. “Plástico” é uma pesquisa estética, mas também um reaproveitamento do que acabaria virando lixo.

Claro que há outros artistas passíveis de relação, como também deve haver outros “causos” onde se possa encontrar mais exemplos de como se forma esse raciocínio. É interessante também perceber que nós não somos apenas “nós”, mas um acúmulo de vivências, uma síntese de tudo o que vimos, fizemos e apreendemos. Essa síntese tenta agora se expressar. Ela quer aparecer. Descobri-la pode e deve ajudar nesse processo.

Nenhum comentário: