sexta-feira, 9 de outubro de 2009

O retrato psicológico: Lorenzo Lotto e Moretto da Brescia

O retrato psicológico renascentista, ao contrário da acepção contemporânea da palavra “psicológico”, não evidencia o caráter do modelo, apenas dá pistas. Dois nomes pouco destacados nesse tipo de pintura são bons exemplos: Lorenzo Lotto e Moretto da Brescia.

Lotto, um veneziano que migrou para várias cidades, no decorrer da vida, usava de um simbolismo misterioso, que levava o espectador a querer entender melhor as figuras estampadas em seus quadros. Eram objetos, formas e cores que, propositadamente geravam enigmas. Com esse artifício, o artista não só guiava o olhar do apreciador de sua obra, mas seus pensamentos. Objetos como a lamparina de Jovem Diante de um Reposteiro Branco, traziam perguntas e, ao mesmo tempo, davam pistas para a resposta – a qual não se sabe se o artista detinha. Aparentemente, Lorenzo Lotto dividia algo além da pintura com o interlocutor, como um diálogo íntimo. É como se ele estivesse com o antebraço repouso sobre o ombro do espectador a perguntar “o que você acha que isso significa?”.

Moretto da Brescia, em seu Retrato de um Mancebo, além de nos dar pistas sobre o estado mental do retratado, reverencia a melancolia, moda à época, usando como símbolo a pose do tal mancebo, que apóia a cabeça na mão direita. Outro ponto da tela sugere ainda o motivo de tamanha melancolia, uma inscrição na aba do gorro do rapaz que diz “Ai de mim! Desejo demasiado”, do grego. Há mais interpretações sobre a frase, que não vêm ao caso. O importante aqui é perceber os meios encontrados pelos artistas para evidenciar ou sugerir aspectos sentimentais e comportamentais dos modelos de seus quadros.

Sendo assim, o retrato psicológico, como gênero, trouxe mais do que a simples representação fiel da realidade, indo a fundo aos aspectos mais íntimos do homem do século XVI, revirando segredos e expondo pontos de vista, através de uma composição enigmática e cativante.

Bibliografia

SCHNEIDER, Norbert. A arte do retrato – Obras-primas da pintura retratista européia, 142-1670. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

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